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17 de janeiro de 2010 às 11:53 hs.

“O emissário da escória”

Por Adriana Vandoni

Ela era recém empossada no cargo que tanto sonhou ocupar: juíza de justiçadireito. Carmita falava de boca cheia e peito estufado. Chegou lá, onde seus pais jamais sonharam chegar. Orgulhosa, satisfeita e preparada, Carmita foi se instalar na comarca que lhe coubera, no interior do interior do seu estado. Eram degraus que ainda teria que subir.

Meses depois de instalada naquela cidadezinha onde os olhos do Estado mal enxergavam, Carmita era respeitadíssima, e considerada por todos, a juíza mais correta que por lá já passara.

Uma certa sexta-feira pousa na pista (sim, não era propriamente um aeroporto) um jatinho vindo da capital. Dentro dele além do piloto, um advogado que queria conversar com a juíza. Apesar do estranhamento, Carmita recebeu inusitada visita.

- Boa tarde, juíza.

- Boa tarde, em que posso ajudá-lo?

- Eu sou Gibson, advogado. Trabalho com a Dra Séria, esposa do desembargador Curió.

- Sei quem são eles. Mas no que posso ajudar?

- Pois é Doutora, eu vim em nome da Dra Séria, é que a senhora vai julgar o caso de um cliente dela e eu vim conversar com a senhora.

- Pois então converse.

- É que, a senhora sabe, o cliente está sendo injustiçado, o processo foi todo deturpado, é uma longa história, ele não é traficante. Mas a hora do almoço está chegando. Vamos almoçar e ai conversaremos.

Carmita, já desconfiada do que o advogado queria dizer a ela, pensou que sair para almoçar seria uma ótima oportunidade para ter provas da passagem do advogado pela cidade. Foi no único restaurante e apresentou o advogado a todos com quem encontrou pelo caminho.

- Este é o doutor Gibson, ele trabalha com a Doutora Séria, esposa o desembargador Curió. Veio para conversar comigo.

O emissário nem percebeu que a Carmita estava mesmo registrando sua passagem.

Durante o almoço ele, achando que o clima estava criado, começou a comentar como seria difícil para ela morar naquela lonjura e ainda ficar longe de suas duas filhas pequenas que moravam na capital. Carmita disse que toda folga que tinha, rumava para a cidade para ficar com as meninas, mas tudo era muito difícil por causa da distância.

- Então, Dra Carmita, o que a senhora acha de ter um jatinho toda sexta-feira, esperando para levá-la até a cidade?

Carmita já sabia aonde o advogado queria chegar, mas queria que ele falasse claramente. – Ohhh, seria uma maravilha, né? Mas como eu poderia eu ter um jatinho à minha disposição!

- Doutora Carmita, o Doutor Curió tem acompanhado muito o seu desempenho aqui e ele está muito satisfeito. A doutora Séria é uma grande admiradora da senhora também. Tenho certeza que eles disponibilizariam o avião sempre que a senhora precisasse, esse que me trouxe, é deles.

- Ah é, doutor Gibson? Mas a troco de que eles mandariam o avião me buscar todo fim de semana?

- Doutora Carmita, como estava dizendo, a senhora vai julgar o caso de um cliente nosso, e nós precisávamos de algo favorável.

- Não entendi, o senhor poderia ser mais claro?

- É o seguinte, eu trouxe um documento que a doutora Séria elaborou, basta que a senhora assine.

- Entendo, doutor Gibson. Entendo. Vamos terminar o almoço.

E assim foi. Terminaram de almoçar, Carmita pagou a sua conta apesar da insistência do emissário, e saíram do restaurante rumo ao fórum. Chegando na porta do fórum o Gibson disse:

- Doutora, eu preciso decolar até à 16h, qual é a sua resposta.

- Doutor Gibson, vou dizer ao senhor, vamos entrar até meu gabinete que lá eu digo.

No caminho ela o apresentou ao guarda, à escrivã, à copeira e entraram em sua sala.

- E ai, doutora, o que eu digo para a Doutora Séria?

- Doutor Gibson, diga à Doutora Séria que eu a mandei ir tomar no cu. Diga ao marido dela que já tinha ouvido falar da desonestidade dele, mas agora vejo que ele é muito pior que as histórias que escutava. Diga que vou fazer uma representação contra eles na corregedoria do Tribunal de Justiça. E para terminar, saia da minha sala agora. Deixe a cidade antes que eu te prenda, seu vagabundo.

Carmita fez a representação, mas ela ficou perdida nas gavetas do corregedor, que era muito amigo do Doutor Curió.

O texto é uma ficção, portanto, qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.

Leia também:

  1. Qualquer semelhança é mera coincidência
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10 Respostas para ““O emissário da escória””

  1. Marreta disse:

    Dá- lhe loura cuiabana!
    Neste mundo de muitos curiós, sérias, gibsons e muitas tantas outras aves de rapina que fazem de suas porcas vidas um balcão de velhacarias, merecem ter o difusor traseiro citado em tão singela frase.
    E para dona Carmita, além dos parabéns, uma frase para ilustrar sua palavras: “O dia em que procederes com dignidade, podes não consertar o mundo, mas, certamente na humanidade haverá um canalha a menos”


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  2. Frederico Marzargão disse:

    Todo mundo em Mato Grosso manja bem o Dr. Curió. Sabe que se trata de um escroto, assim como muitos dos coleguinhas.


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  3. Marreta disse:

    Eita ferro a censura me pegou, não me dou por vencido.
    Um menino viu um surucucu no pé de maracujá e correu gritando par sua avó (cada palavrão levava um cascudo).
    Vovò, eu vi um surubundabunda no pé de marabundajá!


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  4. Ronaldo São Carlos disse:

    Infelizmente, há poucas Doutoras Carmitas, por aqui!


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  5. jayme guedes disse:

    Adriana, o texto, na verdade, é uma mistura de ficção e realidade. Ficção é a parte que coube à juíza Carmita. Ficção mesmo, daquelas difíceis de crer. O resto, a parte que descreve o emissário de jatinho, os interesses escusos e o empenho em comprar consciências, é o retrato da transversalidade do quatidiano tupiniquim.


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  6. o.magu.sp disse:

    Eita, Dedé

    Vou lhe presentear com a vinheta da Globo, quando de grandes eventos esportivos:

    BRASILLLLLLLLLLLLL!!!!!!!!!!!!!!!!!

    E uma perguntinha: Tem certeza que o nome do devogado era Gibson?
    Não seria Zé?

    Depois, ocorre aí uma especificidade:
    O vulgo bota acento no cú, embora esteja assente no vernáculo que cu não tem acento. Muito embora o cu se localize no assento. Então, quando se senta, o cu repousa no assento. Interessante, não?


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  7. catarina disse:

    Eita juizinha porreta! Pena que seja só ficção.


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  8. Luiz Brasileiro disse:

    Adriana,
    vou ler mais alguns de seus artigos, pois tudo leva acrer que você além de gatinha tem estilo.
    Caso você não seja direitista, será uma pérola.


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  9. BOCA SUJA disse:

    Pena que é ficção. Nas já existiram pessoas assim, lá no distante passado!!!! Pessoas que não viam apenas o seu umbigo, pensavam e agiam coletivamente!!!
    Muitas coisas do passado voltam a moda novamente. Quem sabe isso não se torna moda outra vez!!!
    Hoje ninguém dispensa o jatinho. Os outros????? Os outros que se danem!!!!!!!


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