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4 de janeiro de 2010 às 17:32 hs.

Capote vivo e atual

Truman-CapotePor Laurence Bittencourt Leite, jornalista

O jornalista aqui do RN, Carlos de Sousa, disse recentemente no blog Substantivo Plural, que para ele era mais importante alguém ser um leitor do que mesmo escrever. Confesso que a frase me surpreendeu, ainda mais sendo ele jornalista cujo oficio maior é escrever, e só aos poucos fui absorvendo o sentido da frase, e reconheço agora que a afirmação de fato faz um sentido imenso. E acrescento: há livros que lemos e temos que voltar ler outra vez; há livros que lemos e uma vez basta e ainda há livros que começamos e deixamos de lado sem terminar, não fazendo falta alguma. No primeiro caso, posso citar o livro do romancista americano Truman Capote chamado “A sangue frio”. O livro se tornou um best-seller quando foi lançado em 1966 nos Estados Unidos e transformou Capote além de milionário, em uma espécie de mito. O livro traduzido no Brasil tem um dos mais belos prefácios que eu conheço escrito pelo também jornalista, Ivan Lessa que hoje mora em Londres.

Mas por que estou mencionando o livro de Capote? Por diversos motivos.

Primeiro como indicação. Segundo para dizer que acho impossível um livro como este ser escrito no Brasil. O livro recompõe a história verídica do brutal assassinato ocorrido numa pequena cidade do Kansas, Holcomb, localizada no sul dos Estados Unidos, dos quatro membros da família Clutter, Herbet, o pai, Bonnie, a mãe e dois filhos (Nancy e Kenyon). Os assassinos invadiram a casa da família Clutter na madrugada de 15 de novembro de 1959, amarrando, amordaçando e baleando na cabeça com tiros de espingardas as quatro vitimas. Após serem presos em Las Vegas, foram julgados e enforcados em 1965.  Mas repito: Por que estou mencionando o livro?

O livro é magistralmente escrito. E Capote um fenômeno como escritor. Um dia depois do crime, o assassinato mereceu uma pequena nota no jornal The New York Times, que não passou incólume aos olhos do atento Capote. Ao se deparar com a nota, de imediato fez as malas e rumou para a cidade “escondida” dos grandes centros e dos burburinhos de Nova York onde residia. O interessante é que quando Capote decidiu viajar ainda não se sabia nada dos assassinos, nem mesmo se era um, dois ou mais, os assaltantes.

“A sangue frio” se tornou um fenômeno de vendas. E mais: depois de lançado, o livro criou um novo gênero chamado de “romance de não ficção” ou de livro-reportagem, porque tinha um caráter jornalístico (Capote nunca foi um verdadeiro jornalista, registre-se) já que se tratava de um fato real, mas narrado artisticamente, como se fosse uma ficção. Trechos do livro foram lançados antes do lançamento oficial em livro, na revista na revista The New Yorker em quatro edições que bateram recordes de tiragem.

No livro Capote conta com detalhes todo o desenrolar que culminou na morte dos Clutter, até o desfecho final com a morte por enforcamento dos assassinos. Ele contrapõe como ele mesmo chamou, os dois mundos dentro dos Estados Unidos. O mundo puritano, radicalmente moral, conservador e o mundo miserável e cheio de violência constante.

Mas por que estou citando o livro? Recentemente escrevi um artigo indagando do porque de não sermos (o Brasil) um país moral. E perguntava qual a diferença entre um ladrão que assalta Bancos, casas, rouba galinhas, do ladrão de colarinho branco que rouba milhões da população e continua freqüentando as paginas das colunas sociais, não dando absolutamente nada para eles.

No livro de Capote, entre outras mensagens (para quem se der ao trabalho de adentrar na sua leitura), ele permite esse tipo de reflexão. Aliás, tem duas cenas durante o julgamento de Dick Hickock e Perry Smith (os dois assassinos) que é quando Perry Smith (o mais inteligente dos dois) diz que “todos os crimes só são variedades de roubo, inclusive o assassinato”. Ou ainda olhando para a platéia, indaga, “Esses caipiras daqui vão votar pelo enforcamento muito depressa, feito porcos indo comer a lavagem. Basta ver os olhos dele. Como se eu fosse o único assassino presente no Tribunal”.

Por que estou citando o livro? Resposta: olhando a corrupção e os roubos dos colarinhos brancos no Brasil não há como indagar como Perry: porque aqui só ladrão de galinha e de Bancos são considerados assassinos? É perturbador? Pode ser em se tratando de Brasil, mas que merece uma reflexão, ah, isso merece. A leitura é fundamental. Carlão tem razão. E Capote continua vivo e atual.

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16 Respostas para “Capote vivo e atual”

  1. Calvin disse:

    Ref. “LBLeite… Leitor x Escritor…”
    Talvez LBL não esteja muito familiarizado com o que vai ler a seguir: é um palpite.
    As pessoas são todas leitoras, todas lêem; são todas escritoras, todas escrevem.

    Mas o que lêem e escrevem?
    Me refiro às Situações Paradigmáticas (SP).
    Mas o que é SP?
    No viver coletivo, de indívíduos agrupados em coletividades – lar, sociedade, cidade, sociedade, pais, sociedade – os acontecimentos se desenvolvem em “moldes” ditos SP.
    Mas quais acontecimentos?
    Todos envolvendo pessoas seja em modo individual, grupo, associação, comunhão.
    Mas o que são “moldes”?
    É uma figura de retórica. Nos eventos com e por humanos há de tudo para ser detalhado ora previsível, ora provável, certo, aproximado, padronizado, estimado, suspeito, deduzivel, aventavel, proponível. Quando empregado o “molde” no acontecimento são facilitadas buscas, descobertas, deslindes, investigações, apuros, desenredos, precisamentos…
    Mas onde estão os “moldes”?
    Estão contidos no conhecimento humano universal daí que há “moldes” para todas partes do Globo, “moldes” específicos para povos, regiões, épocas, latitudes, continentes, estações, atividades, crenças, fenômenos, idiomas…
    Mas seria uma “torre de Babel”?
    Nada disso! Imaginar shopping grande e diversificado; cada corredor, andar, sala, metro quadrado comporta especificidades em rituais, padrões, estabelecidos.
    (continua)


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  2. Calvin disse:

    (continuação).
    Todas as pessoas “lêem” e “escrevem” – entre aspas.

    Mas como são os “moldes”?
    No curso de Medicina há “moldes” específicos, idem na Engenharia, Advocacia, Curso Militar, Psicologia, Bioquimica, Filosofia, Professor, Curso de Polícia – em todas as graduações o conhecimento é dado por calhamaço de “moldes”.
    Mas isso vira “torre de Babel”?
    Não! Os cursos no grau Superior têm conhecimentos básicos comuns voltados a três fundamentos pró performance: Disciplina, Rigor, Apuro (DRA).
    Mas o que é DRA?
    Condiciona a aproximação e agrupamento dos indivíduos Independentemente da atividade profissional, todos se aproximam acertando os DRAs. Óbvio que em cada atividade há específicidades operacionais de DRA mas quanto mais cedo forem feitos os ajustes – “acertar ponteiros” – mais rápido e por mais tempo se sustentam as equipes. As equipes multidisciplinares dependem de acordes iniciais para os DRAs – é “aparar arestas”.
    Mas e “leitores” e “escritores”?
    Há três momentos em que o indivíduo pode se envolver:
    - com seus “moldes” de profissão se empenha em realizar: “ler” e “escrever”;
    - com seus DRAs forma/ colabora em equipe para “ler” e “escrever”;
    - por “moldes” e DRAs universais cria “leitura” e “escrita”.
    Mas que universais?
    Além dos “moldes” de profissão/ atividade há infinidade de “moldes” pelas faculdades volitiva e afetiva – da natureza humana.
    (continua II)


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  3. Manoel Bastos disse:

    Uma vantagem de ser provecto é de ser sucinto e conciso, poupando os olhos e ouvidos alheios de parlapatices forradas de prolixidade….


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  4. Calvin disse:

    (continuação II)
    Mas como Capote bolou “A sangue frio”?
    O profissional de jornalismo reúne para si um bocado de conhecimento em “moldes” para lidar com a natureza humana no dia-a-dia no encalço de impensáveis – age como furungador, fuçador no cotidiano humano.

    LBLeite: “… pequena nota no jornal… olhos do atento…”
    O Capote leu e a mente elucubrou (matutou, pensou) por seus “moldes” mui conhecidos. Pode ser que o “molde” seria “família inteira assassinada” com o qual Capote estava mui familiarizado ou então estalou a intuição – no que o indivíduo se decide seguir a intuição se orienta por “molde”.

    Mas por que não ocorreu para outros?
    O fenômeno se deu com Capote e talvez nem ele nunca soube explicar o que lhe despertou (a intuição) – há muito de acasional na jogada.

    LBL: “… ‘romance de não ficção’,..”
    O que foi escrito resultou dos dados que Capote constatou/ levantou/ reuniu e da maneira que se decidiu “ler”. Antes de redigir Capote “leu” os dados, os informes de várias fontes, suas observações, croquis de técnicos, diz-que-diz de policiais e fuxicos da vizinhança. Para “ler” aplicou “moldes”; o indivíduo recorre a “moldes” secretos, bolados pros seus rolos e broncas, e daí a originalidade.

    LBL: “… narrado artisticamente…”
    Capote deve ter se envolvido emocionalmente – entrou de cabeça no caso e precisou de linguagem nova; “leu” para si e escreveu para a Verdade.
    (continua III, amanhã)


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  5. Calvin disse:

    (continua III)
    Notas:
    - comentário estendido por assunto de primeira, oportunamente criado por LBL.
    - caso a Lux der um desconto ao “ler” perceberá valias para “escrever”.

    Mas o que é escrever para a Verdade?
    É o que faz todo escritor ao escrever um livro já que obrrigatoriamente deve tudo ser colocado com início-meio-fim para no mínimo atrair/cativar os leitores. Reparar que não se trata de uma verdade do senso comum mas sim de uma nova verdade ou seja de Verdade apresentada de outra maneira, ainda inédita.

    Mas como pode isso?
    Pelo recurso aos “moldes”: mistura de “moldes”, paralelismo para “moldes”, choque de “moldes”, compor um jogão entre “moldes”. O médico cria livros a partir de “moldes” da medicina, o político cria livros com “moldes” das atividades públicas. O indivíduo vítima de acidente/ enfermidade cria livro pelos “moldes” que descobre a partir dos seus atribulamentos.

    LBL: “… [assassino diz] ‘crimes só são variedades de roubo, até o assassinato’…”.
    O assassino “leu” e “esreveu” por conhecer “moldes”; a vida no crime faz conhecer novos “moldes” pelas ações, pelas fugas, estadas em prisões, relações conturbadas próprias do ambiente de bandidagem. Daí que isso tudo bem composto – “moldes” bem trançados – deu no “A sangue frio”.

    Mas onde entra Lux nessa?
    Há “moldes” que dão conta do seu dizer “abobrinhas”.
    Por exemplo: ler com sono não dá, meu!
    (fim)


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  6. jayme guedes disse:

    Laurence, sua primeira pergunta pede a diferença entre ladrão de banco, casa, galinheiro, de um lado, e de dinheiro público do outro. Pois bem, a diferença é a competência. Competência é a capacidade que permite a alguém alcançar o objetivo a que se propôs. Não importa qual o objetivo portanto, sem qualquer conotação moral. O traficante que se propôs enriquecer através do tráfico, sem ser pego, pode ser um miserável do ponto de vista moral mas é competente enquanto conseguir manter-se rico e livre. Podem ser competentes, tanto o ladrão de galinhas quanto o ladrão de bancos pois a competência começa na escolha do objetivo cuja condição fundamental é ser compatível com a capacidade do ladrão. A diferença, portanto, entre um ladrão de galinhas, no primeiro nível de dificuldade, e um ladrão de bancos, no outro extremo, é a competência. Supondo que eu fosse um ladrão e usando apenas a percepção de como penso e me expresso nesse texto, vc conseguiria me ver roubando um galinheiro? Perto da competência que percebo em algumas pessoas que leio aqui, os safados de Brasília não passariam de trombadinhas. Sorte do Brasil.


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  7. jayme guedes disse:

    Laurence, no texto vc faz uma segunda pergunta: “porque só aqui ladrões de galinhas e de bancos são considerados ladrões?”. Essa é mais fácil. A resposta, numa palavra, é e-s-c-o-l-a, (falta de). Pegue um eleitor do Roriz que, sem nenhum outro interesse, tenha votado no ladrão nas quatro reeleições, meta a mão no bolso dele e tire uma nota de dez. A reação será imediata e vc terá que devolver a grana, se além disso não for agredido. Amplie o teste e diga a ele que o saldo dele no banco foi debitado indevidamente devido à clonagem de cartão. A reação também será imediata e em seguida ele estará ameaçando o banco com um processo. Agora revele a ele a quantia desviada pelo corrupto que ele elegeu. Nenhuma reação. É provável até que ele ria, afirmando que o dinheiro não é dele, é do governo. Isso é sintoma de que? De falta de escola. Em São Paulo há uma tela chamada impostômetro que informa o total arrecadado a cada minuto. A iniciativa, parece que da FIESP, é boa, mas incompleta. Na minha opinião aquele total deveria ser também constantemente dividido pelo total de brasileiros, de modo a informar a quantia que cada um tem nas mãos do governo. Assim, o Zé Ruela saberia que o governo é como um banco que guarda e aplica o dinheiro dele e que ele tem nesse momento, por exemplo, R$927,48. A cada evidencia de corrupção, o valor desviado deveria ser também rateado e subtraído do saldo do brasuca. Talvez assim houvesse sinal de…


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  8. Calvin disse:

    Jayme deu uma dica e, já que “não invento, só acrescento” vou ampliar.
    Notadamente lá/EUA a noção de “eficácia” é bastante desenvolvida entre os indivíduos; cá/BRA a quase totalidade – sem exagero! – não distingue eficácia de eficiência. A maioria dos empresários não conseguem diferenciar teoricamente.
    Essas duas expressões deveriam ser levadas “acesas” nas mentes dos estudantes de imediato após a alfabetização ao longo de todo o Básico (Fundamental e Médio) até ingressar no Superior.

    Como entender eficácia? São as iniciativas que geram suficiências.
    E a eficiência? São os fazimentos que asseguram necessários.
    Como entender suficiências? São os provisionamentos de contexto.
    E os necessários? São os produzidos programados às circunstâncias.

    Reparar que a criancinha alfabetizada entenderia por meio de vocábulos apropriados à idade, e na medida que avançasse em compreensões, mais e mais novos vocábulos permitiriam “corporificar” a eficácia e a eficiência.

    Quero dizer que nos EUA a eficácia (e eficiência) está coisa do senso comum, corriqueira. Para nós brasileiros essas expressões só são assimiladas no curso Superior; o curso de Medicina é o que mais leva – como coisa do cotidiano nos seis anos – em evidência a exercitação da “eficácia” – com o corpo humano tudo é pela eficácia. Daí que para facilitar ensino sobre eficácia às crianças o corpo humano “colaboraria”.


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  9. jayme guedes disse:

    Manoel Bastos,
    a tradição védica ensina que nossa única propriedade real nesse mundo da percepção sensorial é o tempo. É o tempo que transformamos em tudo: sucesso, fracasso, saúde, doença, prazer, dor, e assim por diante. Seguindo nessa direção, ensina que o maior dos pecados seria o desperdício do tempo alheio e, logo depois, viria o desperdício do próprio tempo. Quando se é provecto esse conceito é ainda mais perceptível.


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    • Manoel Bastos disse:

      É uma teorização inútil e prolixa sem nenhuma claridade…

      Eu cada vez mais uso meu tempo para ver o tempo passar….rs


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      • Calvin disse:

        Pro MBastos. O que é falado por aí pelos figurões em jornalões e televisivos a respeito de ensino/ educação só se permite enfatizar “teorização inútil e prolixa”.

        Falta um espírito da coisa no ensino que seja figurada como “uma sementinha que vira broto que vira plantinha que se torna adulta que rende flores e frutos”.
        O truque teórico seria assim:
        - semente enterrada: eficácia;
        - broto na superfície: eficácia;
        - planta no terreno: eficácia;
        - árvore em plena maturidade: eficácia.
        O mote para o ensino seria: “É a eficácia, estúpido!”
        Dando atenção à eficácia passariam a valer as situações:
        - “Não basta curiosidade para ir às coisas; faz falta vigor mental pra posse”;
        - “Há que se ir às coisas, sem mais”;
        - “Menos sensibilidade e mais precisão”.

        São coisas assim que reformulariam o ensino nacional.


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  10. Psicanalista disse:

    O Calvin sofre de um mal chamado Sindrome de Asperger. Busque ajuda meu filho que você melhora!


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