Por Laurence Bittencourt Leite, jornalista
A arte é um gesto eminentemente solitário. Explico melhor: toda criação artística, teatro, poema, romance, arte plástica, seja no passado ou no presente, é/foi movida por um gesto individual e solitário. A criação não é um processo coletivo no sentido strictu do termo. Até mesmo na oralidade, se pensarem direitinho. Ok, pode-se argumentar que o artista está inserido na história, na vida, e para haver criação o artista não se encontra sozinho no mundo. É de sua relação com a história, com o mundo, com o outro, com os outros, boa ou má, acolhedora ou repulsiva, que brota a sua criação. Mas o gesto, tecnicamente, é individual e único. Trotski de forma genial, percebeu muito bem essa característica da obra de arte, ao refletir de forma generalizada sobre o que ele chamou de “a natureza da arte burguesa” algo que o próprio Walter Benjamim, seguindo outra vertente, também o fez.
A questão é que o termo arte burguesa me parece impróprio ou reducionista, até mesmo partindo de um gênio como Trotski, ainda que dentro do viés marxista, ela tenha o seu valor e o seu sentido de ser. E ainda que a percepção, veja bem, de Trotski seja diferente em vários sentidos (que não cabe aqui discorrer) da tese do próprio Marx sobre a natureza e origem da obra de arte.
No entanto, é dentro dessa forma solitária de ser e de viver, que o artista encontra sua maneira de se expressar no mundo. A execução de uma peça de teatro, por exemplo, é coletiva, mas a criação é solitária. Quem postulou uma teoria interessante sobre a natureza da criação artística foi o russo Mikhail Bakhtin (por sinal perseguido e exilado pelo governo stalinista) afirmando que todo processo criativo teria uma caráter intertextual, interdiscursivo, ou seja, que ao escrever uma obra, um texto, um romance, o autor nunca estaria só, havendo “outras vozes”, outros discursos que acompanham essa criação, e que ajudam a compor a obra. Para explicar sua teoria do romance, Bakhtin usou termos como dialogismo e polifonia.
Neste sentido seria interessante um comparativo entre a teoria literária de Bakhtin e a teoria literária de Harold Bloom coisa que desconheço ou ainda não li de nenhum grande pensador ou teórico da literatura. De qualquer forma para Bloom, que não tinha o menor interesse com gêneros discursivos, com ideologia (ao contrário de Bakhtin para quem todo discurso é ideológico), estudos culturais, pós-coloniais, critica feminista, e sim com a grande obra, esteticamente falando, ou seja, com a arte dita canônica, formadora de uma tradição.
O interessante é que como dois grandes teóricos da literatura, Bloom e Bakhtin se aproximam em certos pontos, mas rompem em algumas visões chaves. Os dois percebem que em todo processo criativo, por exemplo, a intertextualidade se faz presente. No entanto, para Bakhtin essa intertextualidade se daria de uma forma amistosa, enriquecedora, enquanto que para Bloom a intertextualidade serve como motor para a superação de uma dependência e de uma busca de originalidade. Bloom irá postular que no centro de toda criação estaria o que ele chamou de “Angústia da Influência”, termo caro para a psicanálise, advogando que todo grande autor vivência essa angústia da influência em relação a um autor anterior ou autores anteriores, e que desse confronto busca superá-lo(s) e com isso ganhar o seu lócus canônico. É uma tese de confronto e rivalidade.
Dito de uma outra forma: enquanto um aponta para uma acomodação a partir da intertextualidade, no caso Bakhtin, o outro, Bloom, aponta para admiração e superação. Enquanto um aceita a influência e entra em um processo de assimilação, o outro propõe como motor da criação literária (e de todas as atividades humanas) uma defesa intransigente contra essa influência, ainda que ela exista, cabendo ao teórico que quer visualizar essa defesa fazer uso de diversos artifícios cujas chaves o próprio Bloom ensina, a partir do uso correto de certa hermenêutica (processo de interpretar textos).
Tanto Bakhtin quanto Bloom são geniais no sentido de nos ensinar o valor da leitura e da literatura, mostrando de forma irrefutável a meu ver que há sim sabedoria através dos textos literários. O que nos resta, se quisermos, é dar inicio a jornada.





















